Histórias que marcam

Ninguém acreditava no que eu estava sentindo, até eu chegar nas duas médicas

Por Roberta Alfonsin

Depressão, uma doença silenciosa, cercada de negação, mitos e preconceitos que na maioria das vezes nos encurrala e nos empurra direito ao suicídio como alternativa para a dor. Não é o depressivo que se isola, é a sociedade que vai sutilmente nos expulsando do mundo com preconceitos, desacreditando que nós não escolhemos uma doença, principalmente a depressão. De forma pejorativa a depressão é usada para ofender e diminuir pessoas que estão com dor aguda, que no passar dos anos por negligência de familiares e amigos torna-se crônica até que o desespero faz a gente acreditar que somos incapazes, aberrações que são um verdadeiro fardo pesado para os que nos cercam. Em 2016 eu cheguei no ápice da dor, sufocada tentando esconder, com vergonha de mim de mesma, do que as pessoas iriam pensar, de quantos iriam se afastar, afinal tem-se um deprimido com alguém baixo astral, negativo, chato... Eu já não tinha forças para trabalhar, na época trabalhava em um veículo de comunicação e precisava fazer 12 reuniões por semana e viajar muito, aos poucos fui entrando em pânico antes de cada viagem, antes de cada reunião. As tarefas mais banais tornara-se um martírio, não dormia pensando em como iria trabalhar no dia seguinte, precisava me acalmar para pegar o carro e ir trabalhar, subia o elevador do meu escritório em pânico, coração disparado e logicamente eu já não estava performance como antes. Aí entra a parte cruel da doença, passaram a me cobrar em dobro como se eu estivesse relapsa propositalmente, fui chamada de malandra diversas vezes, passei a ser perseguida por uma gerente, fiscalizada pela secretária e neste período eu estava fazendo terapia com uma psiquiatra que ajudou a minha ruína, nem ela acreditava no tamanho da dor que eu estava sentindo. Pedi 15 dias de férias e cai de cama por duas semanas com uma febre que me fazia ter delírios como se eu estivesse em outro lugar, conversando com pessoas. Neste período fui a diversos médicos, além da dor mental o meu físico estava doente, meu corpo doia, meus pés e mãos estavam cada dia mais inchados e meu pescoço cheio de nódulos que cresciam vertiginosamente e eu perambulando em médicos que me falavam que tudo que eu sentia era psicossomático, resultado de estresse. Retornei ao trabalho com 42 quilos, eu pesava 50, no primeiro dia passei mal dentro do escritório e meu chefe ironizou perguntando se eu estava tomando remédios para a “cabeça”, minha psiquiatra viu todo meu declino e apenas me falava que eu tinha que seguir, e eu tentei... Viajava abaixo de calmantes, parava na estrada diversas vezes em pânico e sem conseguir dirigir e seguia com febre e dor no corpo. Neste período uma depressão pós-parto levou minha melhor amiga ao suicídio e eu desabei total... O que tinha na minha cabeça como saída para cessar minha se concretizou. Passei dias e noites sem saber que dia era, não me alimentava, não dormia, eu nem sei por onde andei baques dias posteriores a morte dela, só sei que em tratamento com a psiquiatra, mesmo depois de eu ter abrindo o jogo com meu chefe sobre o que estava acontecendo, eu ter pedido ajuda para família, amigos e até desconhecidos, fui demitida e tentei o suicídio. O problema da depressão é que ela não mostra feridas externas, mas a mente adoece a tal ponto que o físico entra em colapso até você não ter mais forças, e é uma morte assistida, porque seja com isolamento, agressividade, falta de apetite ou total mudança de comportamento nós estamos dando o alerta e pedindo socorro, e a negligência nos mata, não a doença. Hoje eu não tenho mais vergonha de externar a minha luta contra a depressão, eu não escolhi sentir isso, não posso me envergonhar e deixar que o mundo faça chacota com uma doença que mata lentamente, tanto quanto um câncer, o estigma de quem tem depressão é alguém pesado, negativo ou até mesmo louco, tem que ser discutido e quebrado! Merecemos respeito, travamos uma batalha diária que não é para qualquer um, entendi que não sou fraca, sou muito forte! Entendi que posso lidar com ela e preciso do amor das pessoas nos momentos que eu menos merecer. Assim como eu, neste exato momento alguém está encurralado, alguém está com medo do amanhã é alguém está tirando a própria vida por se achar inadequado neste mundo tão “perfeito”. Não raras vezes eu escuto: você é tão bonita, tem tudo, pare com essas bobagens; ou até mesmo cobranças da família de quando eu ficarei curada. As pessoas acreditam em uma caricatura de um depressivo, alguém que já não se cuida, que anda em farrapos e no entanto não é assim, não sempre... E daí vem o negócio de subestimar, negligenciar. Não raras vezes ao relatar a minha psiquiatra que eu não estava mais conseguindo levar a vida ela me argumentava que me olhando daquela forma, arrumada e maquiada, não dava para acreditar, e assim era com amigos e familiares. E assim eu perdi minha melhor amiga, e assim as pessoas comentem suicídio. Eu estou de pé, estabilizada, forte, desde o momento que assumi para mim mesma que não sou menos por ter depressão, não sou incompetente e muito menos anti-social, aprendi a me respeitar e procurar o que me faz bem, perdi a vergonha e o medo do julgamento alheio e passei a me admirar, porque mesmo tão frágil eu consigo ser muito forte em me aceitar e batalhar por mim e sonho em poder fazer o mesmo por quem sofreu como eu, como a minha amiga que infelizmente perdeu para a depressão. Precisamos falar claramente sobre este assunto para que as pessoas saibam que não estão sozinhas nesta batalha e mesmo que família e amigos não entendam, existem muitos alguens que entenderão tudo, que servirão de inspiração como a luz no fim do túnel de uma maneira real, humana, mostrando que não podemos perder nossa auto-estima por causa de uma condição que não escolhemos ter. O preconceito mata, eu sou uma sobrevivente e tenho certeza que muitos outros também poderão ser no momento que este assunto venha a ser tratado com seriedade e leveza, sim, leveza... É tudo que precisamos para voltar a “respirar”. Obrigada. Esqueci de concluir, a febre, os nódulos no pescoço, a dor no corpo, a perda de peso era nada mais nada menos que a Gripe A. Que foi subestimada por mais de 4 médicos que consultei na época que me mandaram para casa com alguns analgésicos e me diagnosticaram com efeitos psicossomáticos resultantes de estresse, até que cheguei a uma ginecologista e uma geriatra, eram as únicas que tinham horário para me atender no mesmo dia, através delas foi diagnosticado a Gripe A, que já tinha evoluído para uma infecção pulmonar e eu estava completamente anêmica e desidratada, foram elas que me olharam de verdade e não subestimaram a minha dor, serei eternamente grata a elas por me salvarem no exato momento que eu já estava desistindo de tudo, por confundirem depressão com outras doenças, como se fosse escolha minha a febre, as dores, a falta de ar. Elas me devolveram minha sanidade, porque não era possível minha família não estar vendo que além do sofrimento mental o meu físico estava doente e uma coisa não estava relacionada a outra exceto o fato da minha saúde mental estar se esvaindo porque ninguém acreditava no que eu estava sentindo, até eu chegar nas duas médicas.