Histórias que marcam

Não seremos nada aqui nesta vida se não tocarmos a vida das pessoas. Serem apenas médicos técnicos jamais me faria lembrar dessa história com felicidade.

Por Cláudia Modena

Achei lindo demais a ideia de homenagear os médicos que salvam vidas e, principalmente para incentivar aqueles que ainda não sabem se querem fazer a diferença emocionalmente na vida de alguém. Demorei alguns anos para engravidar do meu primeiro filho. Então resolvi dar continuidade e engravidei após o Felipe fazer 1 ano. Ao mesmo tempo que ficamos muito felizes, veio a apreensão por serem, “gêmeos”. Seriam 3 filhos em um intervalo de 2 anos. E por eu ouvir no fundo da minha mente, a voz do meu médico dizendo: ”não deseje gêmeos” (não por mal, mas pelas complicações e desdobramentos que ocorrem na maioria das vezes e isso é fato. É ciência). Ao mesmo tempo, ao levarmos a notícia, ele disse em bom som: “estamos juntos! ”. E as coisas corriam muito bem até a 17a. semana gestacional, quando fomos fazer a ecografia para descobrirmos o sexo dos bebês e, nesta, o radiologista constatar que uma bolsa estava secando. Eles eram bivitelinos e um estava ficando completamente sem líquido amniótico. Sem líquido, consequentemente, seria logo, sem vida. Corremos para o consultório e não havia o que ser feito. Médicos são instrumentos de Deus e assim como Ele, possuem limitações que não alcançamos. Mas o paciente sempre quer mais. E aí vem a parte da mão amiga. Do conselho, da conversa individual em uma sala a parte só com o marido e de tudo o que diz respeito ao “SER humano”. Que vem bem antes do que SER médico. A orientação passou a ser repouso absoluto, pois tínhamos um filho muito bem, um morrendo e outro de 1 ano em casa, nos esperando todos os dias. Como profissional graduada, pós-graduada e estudante continua da área da saúde fui em busca de caminhos. E eles não existiam, ou eram escuros e tortuosos. Mas sempre consultando o médico, que virou consulta semanal. Mais de uma vez na semana, muitas vezes. Eu queria saber e monitorar tudo. Como se tudo pudesse estar no meu controle. Mas o tempo foi passando, não tínhamos soluções e a morte não acontecia. Eu sentia que ela ficava próxima, mas lenta. O que sabíamos é que se o falecimento fosse até as 24 semanas o corpo reagiria de um jeito. Depois disso, provavelmente eu entraria em parto prematuro e perderia os dois, correndo risco também da minha morte. O pânico era diário, e a maior força que eu poderia receber naquele momento era do médico. E de Deus. Pois todas as outras pessoas também estavam em choque. Por mim, e pela minha família. As semanas ultrapassaram as 24 e todos seguiam vivos. Crescendo. Coração batendo. Mais médicos acompanhando. Foi quando desisti de fazer consultas semanais. E passei as fazer as obrigatórias. Cansei, e continuei apenas a seguir o repouso orientado e aos estudos infinitos sobre como seria o desenvolvimento dessa criança dentro de mim, sem líquido. Sem liquido, poderia significar sem rim, sem pulmão, e poucas horas ou dias de vida. Fiz um plano B. Médicos especialistas em transplantes pediátricos no Brasil. Lista, endereço, telefone, etc. Como se isso fosse mudar algo, mas me acalmava. Marcamos a cesárea. 3 de janeiro. Fecharíamos as 38 semanas, o que para uma gestação gemelar é uma vitória. Pesos e tamanhos ok. Cérebro e sua atividade ok. Coração G1 e G2 iguais...mas isso não bastava. Inicia o dia 31/12. Véspera de ano novo. E com ela, as contrações. Ah as malditas contrações, que por experiência, me levariam a um final da história ainda naquele dia. Liguei imediatamente para o Dr. João, que estava na praia de Atlântida para comemorar com a sua família, e pedi um plantonista, pois imaginei que de repente ele não conseguisse voltar. Ele me mandou ir para o hospital e me avisou: “eu e o Gustavo estamos indo. Estaremos contigo. Fique tranquila.”. Respirei. E fui. E respirei por que eles viriam. O hospital Moinhos de Vento, neste dia era só meu. Vazio. Todas mães deram alta, nenhuma marcou cesárea. Normalmente já seria tudo em dobro devido ao tipo de gestação, mas tinham muitos pares de profissionais nos cuidando o tempo todo. Naquele dia, e só naquele eu soube o sexo do segundo bebê, que assim como o primeiro, era um menino. Rafael e Matheus. O primeiro chorou. O segundo não. E eu já sabia muito bem o que isso significaria. O Matheus foi um guerreirinho que segurou as pontas firme. A minha, a do mano, da família toda. Cumpriu sua missão que durou em torno de 4 horas. E eu queria que o outro ano não entrasse. Que o tempo parasse e que todos nós conseguíssemos juntos reanimar ele. Mas não deu. Finda a estrada. O João, com mais de 40 anos de carreira, segurou a onda. As minhas, as nossas, e as do Gustavo, o filho. Também médico. Jovem, com filhos pequenos, mas em lágrimas já enxergando o que a vida lhe reserva nessa profissão linda, salvadora, mas que as vezes fica um pouco cruel, difícil e desafiadora até para eles. Não seremos nada aqui nesta vida se não tocarmos a vida das pessoas. Serem apenas médicos técnicos jamais me faria lembrar dessa história com felicidade. Jamais seria assim se esses dois anjos enviados naquele dia, não estivesse comigo, conosco. Saí com gratidão pela vida, com o entender que faz parte e que por mais que doesse, eu precisava me superar. Para sair bem, de cabeça boa apesar do coração destruído. Sem depressão e podendo cuidar de um recém-nascido que precisava tanto de amor como o que estava em casa nos aguardando. Seguindo a vida. Dr. João Alfredo, meu médico da vida inteira. Eu nasci com ele. Dr. Gustavo, meus netos serão teus. Obrigada sempre, por serem meus.