Histórias que marcam

Uma nova experiência.

Por Nelson Carús, médico

Um médico de uma vila do interior do Nordeste gaúcho precisava tirar dez dias de férias, para isso, me procurou com vista a substituí-lo no atendimento dos pacientes. Acertamos as condições e a forma de prestação dos serviços o local onde eu ficaria hospedado, o hospital. Tudo combinado, para lá viajei, mas tenho a primeira surpresa, uma vila com três mil habitantes e nove igrejas. Rapidamente olho o vilarejo e chego até o hospital. Sou recebido pelas pessoas responsáveis pelo nosocômio, que prontamente me acolhem e mostram as minhas acomodações, solto a bagagem e já saio para olhar as condições do hospital, as medicações os poucos doentes, assim, tomando ciência do que ali havia. Primeiro dia, já começo atender as consultas que ali chegavam, descubro o “sinal da mala”, as pessoas que vinham para consultar e traziam a MALA, queriam ser internadas, isso era um sinal social de sua gravidade da doença, rapidamente procuro aprender o comportamento local. No segundo dia, chega uma gestante em trabalho de parto, que chorava copiosamente, vou examiná-la, mas falo com a senhora ela me responde e não entendo nada, imediatamente peço para a minha assistente me relatar o que ela falava, dizendo a moça: - Doutor, ela fala russo, e eu não sei o que ela diz. Isso complica muito a situação, pois eu também, e ainda, não aprendi russo. Peço à jovem que procure alguém que fale russo. Ela me trás o marido da parturiente, que fala russo, todavia, o homem fala russo e alemão, eu também não sei falar alemão. Novamente peço a minha auxiliar que encontre alguém que fale alemão, quando vem outra funcionária do hospital que fala alemão e português. Levo todo mundo para sala de parto, aí, eu falava com a funcionária, ela falava com o marido e o marido falava com a parturiente, o verdadeiro telefone sem fio. Logo descubro a razão do choro da grávida, num parto anterior que ela tivera, em uma cidade maior, a criança havia morrido e, o médico que lhe assistiu informou que ela não teria filhos, pois todos iriam morrer no parto. Com uma larga experiência em obstetrícia, avaliei a paciente, o feto estava em ótimas condições e o trabalho de partos evoluía dentro de parâmetros de normalidade, procurei acalmar a gestante utilizando o meu telefone sem fio, eu falava para a funcionária, ela falava para o marido, o marido falava para a parturiente. No tempo previsto, nasceu o menino em ótimas condições, o que trouxe muita felicidade para os pais e grande repercussão no vilarejo. Na manhã seguinte, uma comissão de cidadãos da vila veio me procurar, fazendo um convite para que eu fosse trabalhar ali. Foi uma experiência memorável na minha vida.